sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A História Por Trás da Música - Samba de Orly (Toquinho/Chico Buarque/ Vinicius de Moraes)

Toquinho, Chico e Vinicius

Em 1968, Toquinho foi pela primeira vez à Itália ajudar Chico Buarque na gravação de um disco com o Maestro Ennio Morricone. Trabalho mesmo foram três dias apenas. Os 37 restantes foram de turismo. Além de Roma, visitou Paris e, com Cesar Camargo Mariano e Wilson Simonal, deu uma esticada até Londres e Nova York.
No Brasil, a situação política era tensa e iria culminar, em 13 de dezembro de 1968, com a  decretação do AI-5, o mais draconiano ato institucional, que conferia poderes ilimitados ao Presidente da República para cassar mandatos eletivos, afastar juízes e autorizar prisões sem necessidade de mandado judicial. Era a ditadura escancarada, como lhe apelidou Elio Gaspari.
Muitos intelectuais e artistas deixaram o país, entre eles Chico Buarque, que se autoexilou em Roma. Nesse período, Toquinho colaborou (sem a presença de Vinicius) com seu violão no disco La vita, amico, é l'arte dell'incontro, produzido pelo italiano Sergio Bardotti em homenagem ao poeta.
Passados os primeiros momentos de autoexílio na Itália, onde Chico ainda conseguiu algum trabalho graças ao sucesso que "A banda" fizera naquele pais, as oportunidades começaram a escassear, até que finalmente surgiu a possibilidade de uma série de shows. Mais do que depressa, convidou Toquinho para acompanhá-lo. O amigo, no Brasil, não titubeou e se mandou de violão na mão para a Itália. Lá chegando, ficou sabendo que não havia show nenhum. Chico conta que havia sim os tais shows, mas que o empresário desaparecera. Por seu lado, Toquinho diz que Chico queria apenas a companhia de um amigo e por isso inventou a história. E diz mais: assim que chegou, além de saber que não havia trabalho, Chico ainda lhe pediu dinheiro emprestado.
Seja como for, tempos depois eles excursionaram pela Itália fazendo a primeira parte de um show da cantora Josephine Baker. Não era muito para quem fazia enorme sucesso no Brasil, mas deu para defender alguns trocados.
Em novembro de 1969, Toquinho, decidido a voltar ao Brasil, mostrou a Chico um tema musical de despedida e pediu-lhe que colocasse letra. No mesmo dia, o letrista escreveu os versos finais:

Vê como é que anda
Aquela vida à toa
Se puder me manda
Uma notícia boa.

Porém, a letra só ficou pronta um ano depois, em 1970. E, quando Chico foi mostrá-la a Toquinho, estava por perto o poeta Vinícius de Moraes, conhecido pelo ciúme que tinha de seus parceiros. Toquinho gostou. Mas o poeta ciumento achava que podia melhorar. Gentil, Chico concordou. Era tudo o que Vinicius precisava para entrar na parceria. Foi para um canto, mexeu, remexeu e voltou, sugerindo: "Tem uma frase aqui, Chico, que é muito branda por todo o tempo que você passou lá fora: 'Pede perdão pela duração dessa temporada' é muito leve. Tem de ser: 'Pede perdão pela omissão um tanto forçada'. É mais contundente". Chico e Toquinho aceitaram a mudança, mas a censura não (e tudo naquela época tinha que ser submetido previamente à sua aprovação). Os zelosos profisisonais da tesoura cortaram exatamente os versos de Vinicius. Toquinho ligou, então, para o autor dos versos censurados dizendo: "A sua frase foi proibida". Sem  se abalar, o poeta respondeu: A frases eles podem proibir, mas a parceria não." E assim foi feito.
Embora Toquinho tenha partido do aeroporto de Fiumicino, na Itália, a canção foi batizada como "Samba de Orly", porque a França era a porta de entrada dos exilados brasileiros que iam para a Europa.
"Samba de Orly" foi gravada pela primeira vez no LP "Construção" (1971), de Chico Buarque.

Fonte:  Histórias de Canções - Toquinho, de João Carlos Pecci & Wagner Homem


Samba de Orly
(Toquinho/Chico Buarque/ Vinicius de Moraes)

 Vai, meu irmão 
Pega esse avião 
Você tem razão
De correr assim 
Desse frio
Mas beija 
O meu Rio de Janeiro 
Antes que um aventureiro 
Lance mão 

Pede perdão 
Pela omissão um tanto forçada
Mas não diga nada 
Que me viu chorando 
E pros da pesada 
Diz que eu vou levando 
E vê como é que anda 
Aquela vida à toa 
E se puder me manda 
Uma notícia boa 





4 comentários:

Ficou excelente o texto e Toquinho é tudibom! Canta bem, exímio violonista e é uma das personagens mais simpáticas da MPB! Muito bom tudo!

a musica ja era uma de minhas favoritas, agora sei sua historia, passei a gostar ainda mais da mesma.

Adorei o detalhamento da história. Muito obr

Emocionanre lembrar do Brasil pelo Rio de Janeito...letra fantastica!!!

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