quinta-feira, 26 de abril de 2012

A História Por Trás da Música - Ne Me Quitte Pas (Jacques Brel)

Jacques Brel

A canção Ne me quitte pas foi escrita em 1959 pelo cantor e compositor belga Jacques Brel, depois do término de seu relacionamento com a cantora e atriz francesa Suzanne Gabriello, uma das várias amantes que ele teve ao longo dos anos.
Mas, para contar a história da música, é preciso falar um pouco sobre a história de Jacques Brel.
Considerado um mestre da chanson moderna, Brel é amplamente reconhecido em países de língua francesa como um dos melhores compositores de canções francesas de todos os tempos. Embora tenha gravado a maioria de suas canções em francês, tornou-se uma grande influência para os compositores e artistas de língua inglesa como David Bowie, Leonard Cohen e Rod McKuen. Traduções em inglês de suas canções foram gravadas por grandes nomes da música nos Estados Unidos, incluindo Ray Charles, Judy Collins, John Denver, The Kingston Trio, Nina Simone, Frank Sinatra, Scott Walker e Andy Williams.
Brel já vendeu mais de 25 milhões de discos no mundo inteiro, e é o terceiro artista belga mais vendido de todos os tempos
Jacques Brel nasceu em Schaerbeek, uma pequena cidade ao norte de Bruxelas. Seu pai era chefe de uma fábrica de embalagens, e ele cresceu num ambiente familiar bastante austero. Aos 16 anos, ele começou a exibir os primeiros sinais de seu talento artístico, formando seu próprio grupo teatral com os amigos e escrevendo uma série de peças. Quando completou 18 anos, seu pai insistiu que ele deveria parar seus estudos e desempenhar um papel no negócio da família. Brel passou então a trabalhar na fábrica de papelão do pai.
Em 1949, ele se tornou presidente da associação filantrópica La Franche Cordée, onde iniciou a sua formação cultural e produziu uma série de peças beneficentes, incluindo "Le Petit Prince" de Saint Exupéry.

Brel e Miche

Foi na La Franche Cordée que ele conheceu Thérèse "Miche" Michielsen, com quem se casou em 1950. A primeira filha do casal, Chantal, nasceu no final de 1951.
Nessa época, Jacques, que odiava a rotina diária do escritório, já estava desenvolvendo um grande interesse pela música. Em 1952, ele começou a compor suas primeiras canções, interpretando-as nos encontros familiares ou no circuito de cabarés de Bruxelas.
Em 1953, Brel se apresentou no cabaré La Rose Noire, em Bruxelas. Nesse mesmo ano, ele gravou uma demo para a gravadora Philips, que chegou às mãos de Jacques Canetti, caçador de talentos e diretor artístico da gravadora. Impressionado com a gravação, Canetti convidou Brel para ir para Paris.
A família de Brel, porém, não estava tão impressionada assim e se recusou a contribuir com qualquer valor para a viagem. Sem se deixar abater pela falta de incentivo e com o fato de que Miche tinha dado à luz a segunda filha do casal, em setembro de 1953 ele fugiu da Bélgica, da sua família e de sua vida, e foi cantar em Paris.
Na capital francesa, ele percorreu um longo caminho até alcançar a fama. Teve que trabalhar duro, cantando em cabarés, circos e mercados. Sofreu insultos e zombarias contínuas.
Em 1955, ao participar de uma turnê de shows organizada  por Jacques Canetti, sua história com Suzanne Gabriello começaria a se desenhar.

Jacques Brel e Suzanne Gabriello

Filha do ator Gabriello, Suzanne era atriz e cantora, e parodiava os grandes cantores da época, como Charles Aznavour, Enrico Macias, Guy Mardel, Georges Brassens, Jean Ferrat, Nino Ferrer.
Ela também estava participando da turnê de Canetti.
Em uma entrevista, Suzanne relembra seu encontro com Brel: "Eu conheci o Jacques pela primeira vez - o coração sempre se lembra - exatamente em julho de 1955, durante uma das turnês de Canetti, na Normandia. Ele era tímido e um tanto estranho. Estávamos todos um pouco intrigados com aquele belga vindo direto da Bélgica. Sua apresentação era incomum para 1955. Ele acompanhou-se de seu violão e exerceu uma espécie de fascínio especial sobre o público. Ele meio que os conduziu através da tempestade".
Suzanne tinha 23 anos quando eles se conheceram. Ela tinha o cabelo curto e preto, olhos escuros e uma pitada de impertinência. Brel a chamava de Zizou.
Zizou teve um papel importante na carreira de Brel. Sua posição como apresentadora no Olympia de Paris contribuiu muito para a ascenção dele.
Quando Suzanne engravidou ele prometeu o divórcio, mas não reconheceu a paternidade da criança e a obrigou a fazer um aborto. Ela o abandonou, e, dizem, tentou o suicídio. Foi então que, dilacerado pela culpa, Brel escreveu Ne me quitte pas (Não me deixe).

Café Au Rêve

Há quem afirme que foi no Café Au Rêve que surgiu a inspiração para Brel compor Ne me quitte pas. Do terraço do café, ele conseguia avistar o apartamento de Suzanne que ficava na Avenida Junot. De sua mesa, ele observava a janela tomando notas.  É neste ponto exato que ele escreveu a canção, gravada pela primeira vez por Simone Langlois em 1959.
Alguns anos mais tarde, ele declarou: "não é uma canção de amor, é a história de um imbecil, de um fracassado, um covarde."

Brel, Miche e as três filhas do casal: Chantal, France e Isabelle

Jacques Brel nunca foi marido e pai exemplar. Sua esposa e as filhas permaneceram em Bruxelas, mas todos em Paris sabiam dos seus amores adúlteros.
Em 1955, Miche e as filhas se juntaram a Brel na França. A família se estabeleceu no subúrbio parisiense de Montreuil. A terceira filha do casal, Isabelle, nasceu em 23 de agosto de 1958.
Apesar das longas ausências e das inúmeras traições de Brel, ele e Miche nunca se divorciaram.
Em 1966, Jacques Brel chocou a todos ao anunciar que estava desistindo de sua carreira de cantor, e declarou que não tinha mais nada para oferecer ao mundo da música e queria dedicar mais tempo a outros projetos.
Em 1973, Brel descobriu que tinha câncer de pulmão. Ele morreu de uma embolia pulmonar em 09 de outubro de 1978, aos 49 anos.
Suzanne Gabriello casou-se duas vezes: com o diretor Guy Dauvilliez-Lauzin, com quem teve uma filha, Mary; e com Michel Dubaile, com quem teve um casal de filhos, Pascale e Peter. Ela faleceu em agosto de 1992, aos 60 anos.

Jacques Brel tornou-se internacionalmente conhecido com Ne me quitte pas. Ele gravou a música pela primeira vez em 11 de setembro de 1959, como parte do álbum La Valse à mille temps. Em 20 de junho de 1972, treze anos após a versão original, ele lançou uma nova versão para o álbum que leva o mesmo nome, Ne me quitte pas.


O vídeo com a tradução da música não pode ser incorporado. Para assistir no Youtube, clique aqui.


Ne me quitte pas foi traduzida em numerosos idiomas, e tem sido amplamente regravada.
Ouça na playlist abaixo outras versões, incluindo a versão em inglês (If you go way), interpretada por Frank Sinatra, e a versão em português (Se você partir), gravada por Altemar Dutra.



Este artigo foi uma sugestão de nossa leitora Mônica Faustino.






7 comentários:

Adorei conhecer a história...
Bjsss
Valéria Cruz

Parabens pelo trabalho de reescrever a vida deste magnifico Jacques Brel, tinha lindo muito sobre ele,mas aqui voce foi bem na raiz.
Gostei amigo.
Compartilharei.
Meu abraço.

O vídeo no youtube é demais Suzy e repetindo o que o Thomaz disse:

"Tudo que ela toca vira ouro..."

Fantástico esse post, abraços.

Parabéns pelo post, só uma correção, Schaerbeek é na verdade um bairro periférico de Bruxelas, mas como a capital da Europa é bastante pequena, com boa vontade dá pra ir andando até o centro (mas é uma boa caminhada). Estive na Bélgica ano passado e fiquei num hotel nessa região. Mas não recomendo muito, é meio barra-pesada. :)

Ah, fiz um vídeo com outra tradução da música, este acredito que possa ser incorporado, encontra-se aqui:

http://youtu.be/BcTeEISBKdI

Oi, Guardião!

A informação sobre Schaerbeek tirei da Wikipedia, que a define como uma comuna belga, que equivale ao município (cidade)noutros países.
Obrigada pela informação e pelo comentário.
Seu video também não pôde ser incorporado! Caso consiga liberar a incorporação, me avisa aqui.

Abraço ;)

O texto acompanha a excelência da composição e do desempenho de Brel. Ouvi muitas vezes a canção (legendada em português) no youtube e cada vez gosto mais dela. A história por trás da canção, tão necessária quanto humana, faz-nos descer alguns degraus abaixo da altura a que nos ergue a fruição do vídeo. Assim, damos razão a nandahbarb e Mark maxx em seus comentários; percebemos que Brel não chora, e talvez nem sue (um 'spray" de água fria, quem sabe?) enquanto canta; mas, suor ou água fria, sua angustiada expressão fisionômica é tão adequada a cada palavra do poema que a impressão é de que improvisa.

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