domingo, 20 de fevereiro de 2011

Grandes Poetas - Paulo Mendes Campos



Translúcido

Rosas rara se alçavam puras.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.

Amo os danos do mundo, quero a chama
Do mundo, vós, paixões do mundo. E penso:
Estrangeiro não sou, pertenço à terra.

Um céu abriu as mãos sobre o meu rosto.
Barcos de prata cantam vagamente.

Pensando, desço então pelas veredas
Do mar, do mar, do mar !
Sinto-me errante.

Que faz no meu cortejo essa alegria ?
O tempo é meu jardim, o tempo abriu
Cantando suas flores insepultas.
Canta, emoção antiga, meus amores,
Canta o sentido estranho do verão,

Canta de novo para mim que fui
Vago aprendiz de mágico, abstrata
sentinela do espaço constelado.
Conta que sempre sou, quem fui, menino.

A pantera do mar da cor de malva
Uivava sobre a vaga chamejante.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.
Meu pensamento forte é quase um sonho.
Nos meus ombros, o pássaro final.

Íntimo, atroz, lirismo a que me oponho.
Quando a manhã subir até meus lábios
Suscitarei segredos novos. Ah!
Esta paixão de destruir-me à toa.


Paulo Mendes Campos - Poeta, escritor, cronista e jornalista mineiro. É considerado um dos maiores cronistas brasileiros.
Paulo nasceu no dia 28 de fevereiro de 1922, na cidade de Belo Horizonte, MG. Era filho do médico e escritor Mário Mendes Campos e de D. Maria José de Lima Campos. Seu interesse pela literatura se manifestou muito cedo. Ingressou nas faculdades de Direito, Odontologia e Veterinária, em Belo Horizonte, na década de 1940, mas não chegou a concluir nenhum dos cursos. Também chegou a cursar, em Porto Alegre, RS, a Escola Preparatória de Cadetes. De volta a Belo Horizonte (1939), iniciou-se no jornalismo, no Diário de Minas. Depois da guerra (1945) mudou-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou no Instituto Nacional do Livro e foi diretor da seção de obras raras da Biblioteca Nacional. Escreveu suas primeiras crônicas no Diário Carioca e manteve por muitos anos, na revista Manchete, uma coluna semanal. Seu primeiro livro de poemas foi "A palavra escrita" (1951), mas o sucesso na poesia só veio com "O domingo azul do mar" (1958). Seu primeiro livro de crônicas foi "O cego de Ipanema" (1960). Em sua obra destacam-se ainda "Homenzinho na ventania" (1962), "Os bares morrem numa quarta-feira" (1981) e "Diário da tarde" (1986).
Em 1966, recebeu o prêmio Alphonsus de Guimaraens, concedido pelo Ministério de Educação e Cultura, pelos livros de poesia "Testamento do Brasil" e "O Domingo Azul do Mar".
Também trabalhou como tradutor de poemas como "The Waste Land", de T. S. Eliot, com o título de "A terra inútil".
Faleceu no dia 1º de julho de 1991, aos 69 anos. Em 1999, a prefeitura do Rio de Janeiro colocou seu nome numa praça do Leblon.)

1 comentários:

A poesia é a manifestação que tem como alma o sentimento, a mais profunda interpretação que o poeta pode ter do mundo que o cerca, passado, presente, futuro... das belas artes o ápice. Convido a ler uma poesia de minha autoria, escrita em 05/03/2011 e publicada em meu blog: http://valdecyalves.blogspot.com/2011/03/canto-vida-peregrina.html

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