segunda-feira, 17 de maio de 2010

Livros - Deus Negro (Neimar de Barros)

Continuando minha saga "À Procura do Secador de Cabelo Perdido", resolvi dar uma arrumação na estante de livros (nunca se sabe...) e, em uma das quatro gavetas onde guardo os livros mais antigos, me deparei com um exemplar de "Deus Negro" (1979), escrito por Neimar de Barros,  que pertencia ao meu pai.
Neimar de Barros era produtor de televisão e fazia parte da equipe de Silvio Santos, para quem criou e produziu vários programas de grande audiência, como "Cidade contra Cidade" e "Boa Noite, Cinderela". No início dos anos 70, Neimar se converteu ao catolicismo, abandonou a TV e se tornou famoso como escritor de livros religiosos, entre eles "Deus Negro", que se tornou best-seller, vendendo mais de 4 milhões de exemplares.
Me recordo de ter lido o livro ainda menina, com meus 12 ou 13 anos, e um poema, em especial, me impressionou bastante: "Deus Negro", o qual reproduzo abaixo.

Para quem conhece, vale a pena reler. Para quem não conhece, vale a pena ler.




Deus Negro


Eu, detestando pretos,
Eu, sem coração!
Eu, perdido num coreto,
Gritando: "Separação"!

Eu, você, nós...nós todos,
cheios de preconceitos,
fugindo como se eles carregassem lodo,
lodo na cor...
E, com petulância, arrogância,
afastando a pele irmã.

Mas,
estou pensando agora,
e quando chegar minha hora?
Meu Deus, se eu morresse amanhã, de manhã?
Numa viagem esquisita, entre nuvens feias e bonitas,
se eu chegasse lá e um porteiro manco,
como os aleijados que eu gozei, viesse abrir a porta,
e eu reparasse em sua vista torta, igual àquela que eu critiquei?
Se a sua mão tateasse pelo trinco,
como as mãos do cego que não ajudei?
Se a porta rangesse, chorando os choros que provoquei?
Se uma criança me tomasse pela mão,
criança como aquela que não embalei,
e me levasse por um corredor florido, colorido,
como as flores que eu jamais dei?
Se eu sentisse o chão frio,
como o dos presídios que não visitei?
Se eu visse as paredes caindo,
como as das creches e asilos que não ajudei?
E se a criança tirasse corpos do caminho,
corpos que eu não levantei
dando desculpas de que eram bêbados, mas eram epiléticos,
que era vagabundagem, mas era fome?

Meu Deus!
Agora me assusta pronunciar seu nome.
E se mais para a frente a criança cobrisse o corpo nu,
da prostituta que eu usei,
ou do moribundo que não olhei,
ou da velha que não respeitei,
ou da mãe que não amei?
Corpo de alguém exposto, jogado por minha causa,
porque não estendi a mão, porque no amor fiz pausa e dei,
sei lá, só dei desgosto?

E, no fim do corredor, o início da decepção.
Que raiva, que desespero,
se visse o mecânico, o operário, aquele vizinho,
o maldito funcionário, e até, até o padeiro,
todos sorrindo não sei de quê?
Ah! Sei sim, riem da minha decepção.

Deus não está vestido de ouro. Mas como?
Está num simples trono.
Simples como não fui, humilde como não sou.

Deus decepção.
Deus na cor que eu não queria,
Deus cara a cara, face a face,
sem aquela imponente classe.

Deus simples! Deus negro!
Deus negro?

E eu...
Racista, egoísta. E agora?
Na terra só persegui os pretos,
não aluguei casa, não apertei a mão.

Meu Deus você é negro, que desilusão!

Será que vai me dar uma morada?
Será que vai apertar minha mão? Que nada.

Meu Deus você é negro, que decepção!

Não dei emprego, virei o rosto. E agora?
Será que vai me dar um canto, vai me cobrir com seu manto?
Ou vai me virar o rosto no embalo da bofetada que dei?

Deus, eu não podia adivinhar.
Por que você se fez assim?
Por que se fez preto, preto como o engraxate,
aquele que expulsei da frente de casa?

Deus, pregaram você na cruz
e você me pregou uma peça.
Eu me esforcei à beça em tantas coisas,
e cheguei até a pensar em amor,

Mas nunca,
nunca pensei em adivinhar sua cor.

- Neimar de Barros -


6 comentários:

Grande Neimar de Barros, sempre fui seguidora de seus escritos.
E seu poema é uma grande realidade, pois Deus nos prega peças, para ver até onde o ser humano é capaz de ser cruel.
Mas ressalto que, no meu dia-a-dia procuro praticar com lucidez para tentar não errar, que o Deus não seja negro e sim translúcido!
Obrigada minha doce Suzy, para não esquecer que devemos praticar a todo molmento o exercício de não ser preconceituoso.
Beijos no coração.

Minha flor, eu que agradeço sua visita, seu comentário e seu carinho de sempre.
Beijos nesse coraçãozinho tão generoso ;)

Também li esse livro, e a poesia em questão tb me marcou.
Beijos

Os poetas conseguem ver o que alguns deixam passar e o bom é que eles nos deixam suas impressões, do que enxergam, onde só vemos ar.

Somo todos poesia de Deus.

Lindo post!

Li este livro quando era adolescente e nunca mais esqueci a mensagem que deixou, adorei. Afinal para DEUS não existe cor de pele, todos somos seus filhos.

Li este livro quando tinha uns 12 ou 13 anos e ele marcou minha vida, pois tenho ele como marco da divisão de minha leitura infantil/adolescente para uma leitura adulta. Quero muito lê-lo novamente.

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